segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O buraco

Sem desculpas desta vez. Só o texto.



O buraco


         Ele começou a cavar um buraco. No início era algo sem importância ou pelo menos assim lhe parecia. De tempos em tempos ia lá, naquele terreno escondido para cavar mais um pouco. Divertia-se. Entretinha-se. Cavava durante algumas horas do dia ou da noite e depois voltava para sua vida. A atividade estranha, mas deliciosamente o atraía a cada novo encontro. Todos os dias, agora, havia terra pra tirar do buraco.
O buraco ergueu-se alto quando, um dia, olhou para cima. Percebeu que era praticamente impossível subir de volta. Estava preso. Tentava escalar as paredes, mas elas não suportavam o seu peso e se desmanchavam em punhados de terra frouxa. O buraco o prendera. Ninguém podia ajudá-lo, pois não contara a ninguém sobre o terreno ou o buraco, e ninguém passava por perto. Eram só ele e o buraco. Não acreditava que estava naquela situação, provocada pelo buraco e não por ele. “Ou por mim?” Impaciente. Pensou na vida acima dele, fora do buraco. Desejou-a de volta. Arrependeu-se. “E se não fosse esse buraco? Maldito buraco. Cova.” O arrependimento cedeu à raiva. Teve raiva de si, do buraco, da superfície. E com raiva de tudo, voltou a cavar. Deixou de lado as ferramentas. Cavava com as próprias mãos. O coração, nunca tão acelerado, excitado, irrigava sua ânsia de cavar. Dedicou seu corpo e drenou susa forças para a cavadela. Na mente, uma única direção: mais fundo. Aonde mais poderia ir? E o que fazia com a terra que revirava? Ele a comia. Era seu alimento agora. Não podia parar de cavar, não suportava a fome. E ele comia para ter sempre nova terra para cavar. A terra sua comida, o buraco sua casa. Cavava e cavava, todo o tempo. As mãos enfiadas na terra. A boca cheia da terra. A terra cheia de seus excrementos.
            “Espera... É?” Sentiu pingos de chuva nas costas. A superfície chamara sua atenção novamente após tanto tempo. “Quanto tempo? Ah, a superfície.” Pensou que essa podia ser sua chance de sair. “Deixar o buraco?” Lembrou-se do dia em que passou em frente ao terreno desconhecido e de como se sentiu seduzido a conhecê-lo. Naquele dia, quando apenas acariciando a terra com a ponta dos dedos começou a cavar. E, desde então, os bons momentos que tivera cavando. Se chovesse bastante, o buraco ficaria inundado e a água poderia levá-lo até lá em cima. Inspirou fundo toda a esperança que podia extrair do cheiro da chuva. Gostava daquele cheiro. “A chuva traz mudança”, lembrou que alguém muito próximo havia lhe contado, mas não recordava quem. Era alguém da superfície. Sabia que era bom lá, mas não se lembrava direito do que estava fora do buraco. A chuva engrossou e ele decidiu que iria aproveitar a oportunidade, sua única, última chance. Uma decisão não completamente livre da dúvida de deixar ou não o buraco. Estava há tanto tempo lá. “Como poderei viver lá fora?”
Lama sob os pés. A mãos imundas. Cuspiu os vestígios de terra que tinha na boca. “Tenho que voltar.” O buraco começou a encher com a água que escorria e chovia para dentro dele. “Vai dar certo, vou conseguir sair.” Água na altura do joelho, na cintura. Dando no peito, no pescoço. Os pés deixaram o fundo e ele rebatia os braços e as pernas para conseguir manter a cabeça erguida acima da água barrenta. Muito mais do que para respirar, para ver a borda do buraco. Sua saída. Ele continuou flutuando, subindo... A superfície cada vez mais próxima. O pesar de nunca mais voltar ali para cavar. A alegria de sair do buraco. Pensou em parar e retornar para o fundo. Como desejou continuar cavando! “Não.” A chuva ficou ainda mais forte e começou a carrear muita terra, da superfície para dentro do buraco, das paredes para a poça.
Ameaçado, o buraco bebeu toda água que podia. “Deu-me um fio de esperança, maldito.” Vingar-se-ia, contudo. Ele olhou para os lados. As paredes do buraco cederam rapidamente. A terra empurrou seu corpo de volta ao fundo. Era tarde demais. Lamentou nunca mais voltar a cavar. O buraco o atraíra, o buraco o engolira. Realmente, sua cova.

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