O buraco
Ele começou a cavar um buraco. No início era algo sem
importância ou pelo menos assim lhe parecia. De tempos em tempos ia lá, naquele
terreno escondido para cavar mais um pouco. Divertia-se. Entretinha-se. Cavava
durante algumas horas do dia ou da noite e depois voltava para sua vida. A
atividade estranha, mas deliciosamente o atraía a cada novo encontro. Todos os
dias, agora, havia terra pra tirar do buraco.
O buraco ergueu-se alto
quando, um dia, olhou para cima. Percebeu que era praticamente impossível subir
de volta. Estava preso. Tentava escalar as paredes, mas elas não suportavam o
seu peso e se desmanchavam em punhados de terra frouxa. O buraco o prendera.
Ninguém podia ajudá-lo, pois não contara a ninguém sobre o terreno ou o buraco,
e ninguém passava por perto. Eram só ele e o buraco. Não acreditava que estava
naquela situação, provocada pelo buraco e não por ele. “Ou por mim?”
Impaciente. Pensou na vida acima dele, fora do buraco. Desejou-a de volta.
Arrependeu-se. “E se não fosse esse buraco? Maldito buraco. Cova.” O
arrependimento cedeu à raiva. Teve raiva de si, do buraco, da superfície. E com
raiva de tudo, voltou a cavar. Deixou de lado as ferramentas. Cavava com as
próprias mãos. O coração, nunca tão acelerado, excitado, irrigava sua ânsia de
cavar. Dedicou seu corpo e drenou susa forças para a cavadela. Na mente, uma
única direção: mais fundo. Aonde mais poderia ir? E o que fazia com a terra que
revirava? Ele a comia. Era seu alimento agora. Não podia parar de cavar, não
suportava a fome. E ele comia para ter sempre nova terra para cavar. A terra
sua comida, o buraco sua casa. Cavava e cavava, todo o tempo. As mãos enfiadas
na terra. A boca cheia da terra. A terra cheia de seus excrementos.
“Espera...
É?” Sentiu pingos de chuva nas costas. A superfície chamara sua atenção
novamente após tanto tempo. “Quanto tempo? Ah, a superfície.” Pensou que essa
podia ser sua chance de sair. “Deixar o buraco?” Lembrou-se do dia em que
passou em frente ao terreno desconhecido e de como se sentiu seduzido a
conhecê-lo. Naquele dia, quando apenas acariciando a terra com a ponta dos
dedos começou a cavar. E, desde então, os bons momentos que tivera cavando. Se
chovesse bastante, o buraco ficaria inundado e a água poderia levá-lo até lá em
cima. Inspirou fundo toda a esperança que podia extrair do cheiro da chuva.
Gostava daquele cheiro. “A chuva traz mudança”, lembrou que alguém muito
próximo havia lhe contado, mas não recordava quem. Era alguém da superfície.
Sabia que era bom lá, mas não se lembrava direito do que estava fora do buraco.
A chuva engrossou e ele decidiu que iria aproveitar a oportunidade, sua única,
última chance. Uma decisão não completamente livre da dúvida de deixar ou não o
buraco. Estava há tanto tempo lá. “Como poderei viver lá fora?”
Lama sob os pés. A mãos
imundas. Cuspiu os vestígios de terra que tinha na boca. “Tenho que voltar.” O
buraco começou a encher com a água que escorria e chovia para dentro dele. “Vai
dar certo, vou conseguir sair.” Água na altura do joelho, na cintura. Dando no
peito, no pescoço. Os pés deixaram o fundo e ele rebatia os braços e as pernas
para conseguir manter a cabeça erguida acima da água barrenta. Muito mais do
que para respirar, para ver a borda do buraco. Sua saída. Ele continuou
flutuando, subindo... A superfície cada vez mais próxima. O pesar de nunca mais
voltar ali para cavar. A alegria de sair do buraco. Pensou em parar e retornar
para o fundo. Como desejou continuar cavando! “Não.” A chuva ficou ainda mais
forte e começou a carrear muita terra, da superfície para dentro do buraco, das
paredes para a poça.
Ameaçado, o buraco bebeu
toda água que podia. “Deu-me um fio de esperança, maldito.” Vingar-se-ia,
contudo. Ele olhou para os lados. As paredes do buraco cederam rapidamente. A
terra empurrou seu corpo de volta ao fundo. Era tarde demais. Lamentou nunca
mais voltar a cavar. O buraco o atraíra, o buraco o engolira. Realmente, sua
cova.
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