domingo, 12 de junho de 2011

Quanto tempo...

É...já faz mais de uma mês desde o último texto. Muito tempo, verdade. Posso me justificar pela falta de tempo? Viagens do trabalho, provas da faculdade...Tempo demais para o blog, pouco tempo para mim. Fantástico e irritante relativismo.

Enquanto termino um novo conto, que é sobre - adivinhem - o tempo, publico um conto mais velho, A mosca na sopa.





A mosca na sopa


   Marido e mulher sentados à mesa para o jantar de quinta-feira. Ele de um lado, ela do lado oposto da mesa retangular. Entre os dois, uma travessa com um aguada sopa de carne e uma bandeja com algumas fatias de pão. Já se servindo da sopa, a esposa puxou conversa:
- Quente o dia de hoje, não foi?
- É...foi. Não sei. Passei o dia no escritório com ar condicionado. Depois no ar condicionado do carro. – respondeu o marido, olhando mais para a sopa do que para a mulher.
- Nosso filho zerou a prova de português.
- Português? Quem é que zera em português?
- Nosso filho. Lembra dele?
Agora, ele levantou os olhos e encarou a esposa.
- Que quer dizer?
- Nada.
- Converso com ele amanhã.
- Conversar? O quê? A diferença entre complemento nominal e objeto indireto?
- Indiretas estão suas palavras esta noite. Você acha que não sou capaz de ter uma conversa com meu filho?
- Não.
Ele largou a colher no prato.
- Vai me dizer o que está havendo? Ou vai passar o resto da noite com insinuações?
- O resto da noite não. Pelo menos não enquanto estiver transando comigo.
- Ah, e iríamos transar hoje? Que bicho te mordeu? - voltando a comer.
- Na verdade estou esperando por algumas mordidas...
- Conversa erótica no jantar?
- Te incomoda?
- Não me interessa agora.
- O quê?
- O quê o quê? – demonstrando impaciência.
- O que não te interessa? A conversa erótica no jantar ou a pessoa com quem está conversando?
- Droga! - gritou. Tem uma mosca no meu prato.
- Então devo supor que é o jantar que não te interessa.
- Não vou mais comer isso.
- Quem é Júlia?
- Como é?
- Júlia.
- Não conheço nenhuma Júlia.
- E como a Júlia ligou pra sua casa e perguntou por você?
- Não sei.
- Não sabe? Assim como não sabe se o dia foi quente? Talvez porque entre o ar condicionado do escritório e o do carro tenha havido o ar condicionado de um quarto de motel. – acusou a esposa ironicamente.
- Do que tá falando? Que motel?
- Ah, não sabe isso também?
- Doze anos e acha que eu faria isso com você? - respondeu o marido sério.
Silêncio. Ela não esperava aquela resposta. Preferia uma briga feia àquela resposta, mais fria que a sopa. Os dois se encararam por uns instantes.
- Você nunca me desapontou tanto. - desabafou o marido.
Ela sentiu um nó na garganta. Viu que podia ter exagerado. "Mas e a Júlia?", pensou.
- Eu...ela...- tentou argumentar a mulher.
- Ela quem? Você é mosca nessa relação.
- Então é a pessoa com quem conversa que não te interessa.
- Estou satisfeito. Vou dar uma volta. - disse saindo da mesa.
Ele deixou claro que estava ofendido e a ela sem palavras. Morta na sopa.
- Volto logo. - disse ele batendo a porta.
Ela permaneceu imóvel. Esqueceu a Júlia e se arrependeu.

        A porta se fechou. O marido andou até o elevador. Seu celular tocou. Atendeu:
- Estou a caminho. E se ligar de novo pra minha casa, vou ter que arranjar uma barata pra colocar no meu jantar, Júlia.

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