É complicado finalmente ter coragem de expor os meus textos. Se por um lado, me anima a idéia de que algumas pessoas possam gostar do que ivento, por outro, o receio de que os possíveis leitores não gostem ou, ainda, achem que estou perdendo o meu tempo escrevendo o que considerariam tamanha bobagem, é quase tão forte quanto o entusiasmo. Esta é minha mente agora: um duelo instigado pela incerteza do desconhecido entre o entusiasmo e o medo da vergonha.
Essa situação não é nova. Nem pra mim, nem pra ninguém. Nova, contudo, pode ser a resolução.
A vergonha tem suas armas, mas desta vez, quero abatê-la com um tiro certeiro. Na testa. Ela cairá de joelhos diante do seu algoz e antes de dar seu último suspiro, poderá ouvi-lo dizer: "Dane-se!"
O conto da Barruada
A garota que sentava na quarta cadeira da fila próxima das janelas da sala de aula se chamava Joaquina. Nome feio, não? Ela também achava. Por isso, desde de quando passou a ser gente, como se diz, fez questão que as pessoas a chamassem de outra forma. Ainda hoje, lembra-se da tarde depois da escola em que ficou horas e horas em seu quarto escolhendo o apelido que mais lhe agradava. Falava em voz alta, escrevia, pensava e até xingava os apelidos para saber como eles soavam em várias situações. No fim, considerou que Leka, com k, era....legal. Com algumas semanas, depois de várias vezes repetir que daquele momento em diante só atenderia por Leka, todos já a chamavam assim. Pelo menos até o segundo grau, quando um novo apelido surgiu.
Aos 10 anos de idade, Leka era divertida e alegre. Nada parecia abalar seu bom humor. Ria e sorria muito. Quando todos olhavam para ela, o aparelho ortodôntico que usava para corrigir vinte dos seus vinte e quatro dentes, era sempre a primeira coisa a aparecer e ser notada. Ela não se incomodava com isso. Na verdade achava útil, uma vez que a atenção dispensada ao enorme aparelho metálico diminuía aquela destinada ao nariz. O que tem o nariz? Bem, era como um nariz de bruxa, pontudo, torto com o osso bem protuberante. Não tinha uma verruga, tinha meia. A outra metade fora arrancada a mordidas por um “morcego sanguinário” – ela descrevia-o assim, numa noite em que acampou com a família, no quintal. Sendo o nariz como era e dada a imperfeição dentiforme, a natureza poderia ter compensado em outras partes do rosto da garota. Poderia. Contudo, a insistência pela feiúra era sua marca. É só reparar no formato quadrado da cabeça. A largura do queixo vezes a raiz quadrada de dois daria a diagonal daquele rosto, caso um dia alguém quisesse saber. Os olhos eram muito grandes e pareciam querer se livrar da cavidade. Em cima deles, um fiozinho de nada de sobrancelha. Escalada acima, uma testa enorme. Seus cabelos começavam a nascer quase na metade da cabeça. E por falar nos cabelos....Ela também não via problema nenhum neles: “Ah, eles só são um pouco mal comportados.” Um eufemismo que não convencia a ninguém. Eram compridos, enrolados e secos. Na maior parte do tempo - e isso quer dizer todo o tempo menos durante o banho e um minuto e meio depois, os fios se elevavam como por magnetismo e erigidos permaneciam. A cor loira apagada só piorava a situação.
Essa era a aparência da menina. Nada disso, porém, a incomodava. Não havia tristeza que tomasse o lugar da alegria ou depressão que a impedisse de fazer qualquer coisa. Participava das atividades esportivas, feiras de ciências e peças de teatro. Ser uma criança feia não era problema.
Com a idade, os traços peculiares (!?) de Leka se acentuaram. O que definitivamente não era uma coisa boa. Ela era, agora, uma adolescente de 14 anos feia, mais feia. Felizmente, sua alegria de viver continuava crescente. Leka não via em sua falta de boniteza uma dificuldade. Bem, pode-se até achar que isso seja louvável, mas no caso dela, podia ser perigoso. É que ela, como todos, considerava que, como já houvera atingido um limite inimaginável de feiúra, podia fazer qualquer coisa para mexer com a aparência, pois “pior não pode ficar, certo?”. Errado. Quando ela tentava se embelezar, o desastre era total e sim, pode sempre ficar pior.
Para ir a uma festa de aniversário, Leka se aprontou toda. Ou tentou, a coitada. Batom rosa nos lábios, sombra amarela nos olhos e os cabelos presos num coque bem alto. Um horror. Ao chegar ao local da festa, os presentes torciam o pescoço para vê-la passar, sem se preocuparem em disfarçar os cochichos e os olhares - de susto ou curiosidade . Pela primeira vez, Leka sentiu que sua aparência causava certa estranheza. Mas não deu muita importância e continuou na festa, para sua desgraça.
Cansada de dançar sozinha, ela se aproximou de um garoto. Só não contava que o menino fosse o namorado da aniversariante, que ao ver a desfigura da Leka se aproximar do seu pretendente foi logo gritando, perguntando o que uma coisa horrorosa como ela queria conversando com um rapaz bonito como aquele. E os insultos não pararam em horrorosa. De desarrumada a aborto (!), a dona da festa não economizou, até terminar com: “Você é muito feia, tão feia, meu Deus, você é um desastre! Você não se olha no espelho? É um desastre...uma barruada de trem!
Aquelas últimas palavras foram o estopim para todos caírem na gargalhada, enquanto ela estava ali, imóvel, indefesa, sem nem entender direito o porquê de tanta raiva da anfitriã. “Todos sempre pensaram assim e agora finalmente tiveram a coragem de falar?”, perguntou a si mesma. “Barruada, Barruada, Barruada”, era o coro dos convidados. Com o rosto amarelado pela maquiagem que se dissolvia nas lágrimas, ela decidiu sair dali. E correu. Correu muito, sem parar. Os insultos e as risadas na sua mente.
Diante do espelho, no seu quarto, tentou entender tudo que ouvira daquela menina raivosa. Raivosa, mas bonita. Até aquele momento, ela se sentia bem, não tinha a percepção de que sua aparência pudesse interferir em sua vida. Pelo menos não da forma como agora ela via as coisas. E encarou “Barruada” no espelho por um tempo. “Esse apelido vai pegar, ai meu Deus”, temeu. Gostava tanto de Leka. Barruada era...era...feio.
E Barruada pegou. No primeiro dia de escola, depois do “fatídico episódio da humilhação pública”, todos já sabiam do que tinha acontecido e o apelido a acompanhava nas conversas dos corredores, escrito na sua carteira ou no quadro negro. Mas não só o apelido tinha mudado. Nos times de vôlei e futebol, passou a levar mais boladas do que antes. Nas divisões da classe para trabalhos em equipe, ficava sempre por último. Ninguém queria estar perto de Barruada. “Não entendo”, pensava. “Sempre foi assim e só agora percebi ou tudo realmente mudou porque minha feiúra foi escancarada, esculachada sem piedade?”
Os dias foram ficando cada vez mais difíceis. E como era difícil todo mundo esquecer Barruada! Pensava em conversar com os pais, mas a ida deles à escola só iria provocar mais insultos.
Lentamente, a tristeza de Barruada encobria a alegria de Leka, como nuvens escuras escondem o céu azul. Mas ela não gostava de tal transformação. Preferia a vida de antes. Aquela Barruada, além de ter um apelido horrível, era chata, triste, acanhada demais e muito preocupada com a opinião dos outros sobre coisas que não eram da conta dos outros. Ela era Leka, com “k” e estava com saudades disso. “Preciso fazer chover!”, decidiu.
Alguns meses cinzentos tinham passado quando surgiu no colégio um curso de ilustração. Ela foi a primeira a se inscrever e ficou mais animada. As aulas foram acontecendo e não é que ela levava jeito com os traços? Na verdade, tinha esperança de que essa nova habilidade pudesse torná-la menos impopular, mas isso não aconteceu. Pelo contrário, seus colegas “nazistas impiedosos” – estava estudando a 2ª Guerra Mundial, caricaturavam seu rosto em desenhos grosseiros que a faziam lembrar, todos os instantes, que eles eram os insultados e ela, ou sua imagem, a ofensa.
Chegou um dia em casa cansada de tudo. Deitou-se no chão de seu quarto e começou a rabiscar. Imaginou desenhar a si própria. “Se depender daqueles chatos, bastam uns traços pra lá e pra cá, duas bolas num meio e pronto: o retrato da Barruada”, pensou. “Bando de chatos”, xingou. E começou a esboçar o rosto de uma outra menina, com olhos esbugalhados, testa larga e com cabelos longos e arrepiados. Depois vieram braços, pernas, mas sem preocupar em fazer um retrato. Era um desenho, como os de histórias em quadrinhos...E por um momento arregalou - parecia impossível, mas ela arregalou ainda mais aqueles olhos, movendo-os de para um lado e para o outro, várias vezes, pensando, visualizando a idéia que tomava forma em sua cabeça quadrada. Pensando, imaginando...Ela resolveu criar uma história em quadrinhos cuja principal personagem seria aquela menina que acabara de desenhar. Já sabia até seu nome: Joaquina!
Para surpresa de muitos, Leka – ela mesma começava a esquecer Barruada – desenhava muito bem e as histórias da personagem Joaquina ficaram conhecidas no colégio e no bairro. E Leka não era boba. Tomando proveito de sua quase fama, toda vez que um colega vinha pedir pra ler suas histórias e ver seus desenhos, ela os fazia prometer nunca mais a chamarem de Barruada. E assim, de “pequena chantagem justificável” em “pequena chantagem justificável”, Barruada foi ficando no passado.
Essa superação, trouxe de volta a menina alegre. Leka se interessou cada vez mais pelas arte visuais e se formou em Belas Artes. Ainda na faculdade conseguiu um trabalho de ilustradora. Aos vinte e seis anos, transformou todas as suas histórias em quadrinhos em livros infantis, tendo os publicado com sucesso.
Quanto à aparência...Bem, a Leka mulher continua “desprovida dos padrões físicos ditos belos”, mas deu um trato no cabelo e passou a usar óculos que disfarçassem um pouco os olhos sobressalentes e a testa larga. Tirou também o aparelho dentário e ela mesma se surpreendeu quando viu seu belo seu sorriso. Acreditem ou não, arrumou um namorado. E ele nem é tão feio assim.
O namorado virou marido e, aos vinte e nove anos, Leka espera feliz e ansiosa sua primeira filha.
* * *
Eu sou a Joaquina e essa era a vida que eu queria ter vivido ou minha vida como ela deveria ter sido, não sei. Há mais ou menos quarenta minutos, antes de começar a escrever essa breve história, tomei um veneno que deve impedir meu coração de bater. Logo.
Após o incidente no aniversário, tentei voltar à escola, mas tudo tinha mudado. O apelido, o jeito das pessoas me olharem e me tratarem. Acabei me isolando, me afastando pouco a pouco e de todos, com vergonha das minhas formas e deformidades. Meus pais tentaram me ajudar, mas nada me fazia vencer a pressão que a má aparência exercia sobre mim, apertando meu peito, encolhendo meu horizonte, sabotando a minha mente. Cresci em casa. Sem trabalho, sem amigos e sem futuro. Só um infindável presente de solidão. E sempre mais feia. Estou com vinte e quatro anos e não agüento mais um dia sequer.
O mundo é tão bonito que não deveria ter imperfeições, sejam elas de feiúra ou tristeza. As minhas, de toda minha repugnante existência, levo comigo agora.
Barruada
Não é nada fácil expor nossas idéias escrevendo seja o que for: contos, crônicas, poesias ou simples bilhetes apaixonados( sendo esta ultima algo perdido do meu tempo), sempre existe o maior de todos os críticos nós mesmo, que erroneamente temos medo do que as pessoas vão achar sobre ao nossas tentativas de transmitir sentimentos, cabe a nós não darmos ouvidos a este critico ferrenho e deixar aflorar para as outras pessoas o que guardamos na alma e que elas possam ter a oportunidade de conhecerem um pouco do que somos feito.
ResponderExcluirSabendo que a singularidade humana é arrebatada de maneira única, seus textos tocarão de forma diferente as emoções alheias e o principal nisto é que em sua maioria você conseguirá despertar a emoção única que cada texto carrega em suas entrelinhas, isso é o que verdadeiramente importa para mim e para muitos cujos olhos percorrem cuidadosamente sobre os seus textos.
Adoreeeeeeeeeeeeeeeeeeeei.. gostei muito, espero ansiosa por mais postagens! ;*
ResponderExcluirPreciso fazer chover!
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